Vidas no asfalto

Mariara sitePunha-se de uma beleza indefectível, o sol, este astro dourado, viera clarear os meus dias não tão claros de uma intensa ardência, encobertos pelas sombras de uma terra de gigantes. Cresci e tenho coisas ainda a aprender, os conselhos maternos conduziram-me a ser o que hoje eu sou, um fantasioso ser humano, que goza de uma vida em devaneios, de ações e ideias de todos os dias fantasiosas, que brincam e riem da realidade.

Às seis e meia era o seu horário rígido de passar. Deveria estar de pé às 5 horas. Meus passos agora são mais apressados, num ritmo destoado, prisioneira que sou dos ponteiros do tempo e dos intermináveis segundos. Mais um refém da liberdade exaurida, exumada… Entro no transporte, o cheiro de corpos se misturam numa fusão de epidermes mais ou menos desiguais, o frear daquela máquina arranca um pouco de mim e traz-me  um pouco do outro, numa sensação de terríveis odores, desejos, raiva e  amores…

Espelhos de vidro refletem imagens confusas, desencontradas e inconstantes sob o chão que abriga os meus vacilantes pés. Detido no tempo e no espaço, só enxergo, além de semblantes uivantes, a certeza de um mundo de sonhos irrealizados, postos ao lado do anseio por outra vida bem melhor.

Coletivo, um mundo coletivo ou individual, de pessoas assoberbadas e insípidas, sem gosto, opiniões e sem falas, abafadas pelo barulho altíssono do motor. Possui definições outras como, cata-nica, ônibus, as quais apontam para um mesmo destino, a estrada, isto é, o asfalto.

Numa violação de caráter, esqueço o escrúpulo, esse doce amigo, salto do ônibus, o dedo se ergue num pedido incessante, perigoso, mas, precisado, a parada é por vezes incerta, pois o ponto final pode não ser o esperado na inconveniência dos olhares ameaçadores. Um carro para, entro de súbito, como que para disfarçar um gesto feio.

Matéria da borracha, petróleo, areia, pedra, essa matéria forme e fixa, chamada asfalto já sabe eleger quem por ela pode andar, devorando em seus caminhos serpenteados aqueles que rompem com suas leis e preceitos. Crimes perfeitos são uma de suas ações mais temidas. Vítima, cotidianamente, dos seus pretensos desejos, tento não morrer, mas, ao contrário, viver, salva de golpes certeiros.

Corpos fétidos no asfalto espalham uma atmosfera trágica, de dramas humanos insolúveis e com os quais nos sentimos frágeis e pequenos, sem nada mais a fazer. Alto, esguio, com um ar de pessoa séria, assim caracterizo o homem que me oferece um assento no seu carro. Mas, a definição física distava e muito da interior, e esta eu ainda não era capaz de fazê-lo. Se eu tinha medo? Medo é uma palavra muito forte, no entanto, o que eu sentia era um misto de apreensão e curiosidade pelo ser que ali se encontrava e pela sua maneira de conduzir o veículo, já que minha vida dependia disso também.

O pensamento voava e eu o pegava colocando-o dentro de mim, várias vezes isso sucedeu. Marcas da borracha do pneu na pista exprimindo um frear brusco que parece ter sido em vão, a velocidade, a colisão, um pedido ao céu e a tão esperada morte. Só não pensei que haveria de ser hoje… assim  tão rápido. Uns reais que custam à vida diariamente devem ser muito bem gastos, se não guardados, como se deve guardar a vida. Acaso se guarda a vida? Ou uma quantia em dinheiro eternamente? É quase uma insensatez…

Recordo-me daqueles rostos infantis, angelicais, de uma candura inebriante que outrora recepcionavam-me de coração e braços escancarados. Amores iguais a estes é que me fizeram todos os dias levantar o dedo, pegar uma carona e por fim morrer. Mas, ainda não morri, renasci no sorriso de cada um deles que, inventariando histórias, inventariam uma em que eu fosse a personagem principal, viva em seus sonhos e ações eu estaria perpetuada.

Maiane tirinha

Formada em Letras Vernáculas pela Uneb/campus X
Pós-graduada em Ensino de Língua Portuguesa e Literatura/ Uniasselvi
Pós-graduada em Educação de Jovens e Adultos (Eja) / Uneb