UMA ORDEM MASCULINA: A dominação em Bourdieu

MaianeMulher e homem estão imbricados na relação de dominação masculina, sob formatos rigidamente ditados pela ordem do macho. Estamos por assim dizer, que como a palavra foi dada ao homem, inegavelmente, a história, os esquemas de pensamento, a organização social são produtos da dominação masculina.

   O sujeito masculino emerge da cosmovisão falocêntrica e de um androcentrismo surreal gestado na divisão dos sexos, o cosmo segue a rima inaugurada, sinalizando às mais diversas sociedades, tradicionais ou não, como se deve viver, falar e agir no mundo social, que funciona “segundo uma imensa máquina simbólica que tende a ratificar a dominação masculina”.  (BOURDIEU, 2002, p. 09).

     Esta dominação, para tanto, é o alicerce sobre o qual se ergue a distribuição do trabalho, das atividades que regem as instâncias da vida social, do tempo feminino, da gestação e masculino, do ciclo da agricultura, dos negócios, do espaço feminino, da casa, masculino, do comércio, bares, no interior da casa, do feminino, cozinha, estábulo, masculino, salão, sala, área de lazer. (BOURDIEU, 2002, p. 09).

      Na lei do universo a bipartição de sexos vem determinada sociológica e cosmologicamente, por categorias que os diferenciam e os aproximam, a primeira delas concerne a topologia do corpo, os deslocamentos e movimentos, revestem o homem de inteira significação social, em se tratando da sexualidade, a posição superior durante o ato sexual e o vocábulo alto é revelador da ereção masculina. (BOURDIEU, 2002, p. 08).

     A realidade biológica é substancial para compreender a diferença social entre os sexos. Corpo masculino e feminino desencadeiam formulações sociais a que estão pois sujeitos, moldados por arquétipos universais, ora se encontram plenamente definidos por uma rede de determinação, sobretudo sexual, ou de indeterminação subjetivada, constante nas relações de dominação.

     A representação do feminino e masculino, à luz da sociologia, comumente se estabelece em uma relação de dominação, longe de ser simétrica, esta representatividade apresenta, fundamentalmente, a lógica de um macho dominador em quaisquer que sejam as práticas e situações vividas, exemplificando, o ato da conquista, que atinge o ápice da dominação na experiência do ato sexual, exemplo de “apropriação” do objeto e do exercício da “posse” de um bem.

     Em outras palavras, nisto reside a justificativa pela qual os anseios femininos e masculinos estão separados por um abismo, em se tratando de sexualidade, as frustrações e amores falidos, surgem como consequências da ausência de correspondência amorosa de que as mulheres sabem falar tão bem.

     Como argumentado por Catharine Mackinnon o “gozo masculino é por um lado o gozo do gozo feminino, do poder de fazer gozar. ”  (apud BOURDIEU, 2002, p. 15), ou seja, o poder da dominação é o fetiche do homem, o sabor da virilidade, o prazer de propiciar um orgasmo é prova de que exerce amplo e irrestrito domínio sobre a mulher.

       Como já visto, se a dominação exterioriza-se no ato sexual, como não se manifestar- se- ia nas relações sociais? O resultado desta sentença é Igual a relação de dominação! Assentada no princípio basilar da divisão entre o masculino, ativo, forte, viril e o feminino, passivo, frágil, subjetivo, os opostos   inseridos em um campo magnética factualmente possuem o desejo de atração, o primeiro de apossar-se da mulher, o desejo de posse, a dominação erotizada, o feminino por seu turno assume o desejo de ser dominada, a subordinação erotizada.  (BOURDIEU, 2002, p. 15).

        Na arena das relações sociais existe um princípio ético natural que inscreve a identidade masculina e feminina em seus respectivos antagonismos, na postura, na maneira de servir, posicionar-se, o perfilar de um e de outro, o abaixar os olhos, não interromper quando um homem está falando, maneiras “ prenhes de uma ética, de uma política e de uma cosmologia”. (BOURDIEU, 2002, p. 19).

         A divisão dos gêneros em duas classes, importante componente regulador da ordem social, faz-nos antever uma espécie de habitusdistintos a que estas categorias de pessoas estão destinadas. O homem responsabiliza-se pela provisão, matar o boi, arar a terrar, realizar o plantio e a colheita, arquitetar estratégias de guerra e confeccionar armas para defesa.

           À mulher cabe os serviços menos honrosos e vexatórios, incluindo os trabalhos domésticos, quais sejam, cozinhar, lavar, cuidar dos animais, da casa, das crianças, à revelia de si mesmas, comprovando segundo a razão mítica, que as mulheres são destinadas ao vil, ao menor, sujo, fútil, o trabalho é invisível e vergonhoso na mesma medida em que elas o são.

Maiane tirinha

Formada em Letras Vernáculas pela Uneb/campus X
Pós-graduada em Ensino de Língua Portuguesa e Literatura/ Uniasselvi
Pós-graduada em Educação de Jovens e Adultos (Eja) / Uneb