Tira-teima: o que você precisa saber sobre dengue, chikungunya e zika vírus

mosquito-dengueIntroduzido este ano no Brasil, o zika vírus já tem 16 casos confirmados no país, segundo o Ministério da Saúde, e nesta sexta-feira (22) a Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo confirmou o primeiro caso em São Paulo. Ele é transmitido por um mosquito já bem conhecido pelos brasileiros: o Aedes aegypti, o mesmo que transmite a dengue e a febre chikungunya (lê-se chicungunha). Diante da epidemia de dengue enfrentada pelos brasileiros e dos casos confirmados de febre chikungunya, o que não faltam são dúvidas sobre o novo vírus, que é “primo” da dengue – ou seja, da mesma família dos flavivírus.

Segundo informe publicado em maio pelo Ministério da Saúde, a doença tem evolução benigna e não há relatos de mortes. Os sintomas são parecidos com os da dengue e da febre chikungunya, mas há diferenças que podem indicar o quadro clínico.

Sintomas são parecidos, mas há diferenças sutis

A principal característica do zika vírus é que a febre é mais baixa que na dengue e no chikungunya, que costuma ser abrupta e acima de 39°C. É comum o surgimento de erupções na pele, que podem ser brancas ou vermelhas, além de uma vermelhidão nos olhos parecida com a conjuntivite, mas sem o pus e a coceira característicos. Como na dengue e no chikungunya, há dores nas articulações – geralmente mais intensas que na dengue. Há relatos de menor frequência na literatura médica de inchaço, dor na garganta, tosse e até hematospermia (sangue no esperma ao ejacular). Os sintomas duram até sete dias.

A confusão pode acontecer porque a dengue, no seu estágio final, também causa erupções vermelhas e coceira na pele e o chikungunya resulta em dores articulares mais intensas que na dengue e mais duradouras. “Na dengue, a dor é mais difusa. No chikungunya, elas são mais intensas e predominantes, não há tanta dor muscular”, diz o médico Daniel Knupp, vice-presidente da SBMSC (Sociedade Brasileira de Medicina da Família e Comunidade).

A professora do departamento de Clinica Médica e Infectologia da UFMG, Marise Oliveira Fonseca, afirma que as dores nas juntas causadas pelo chikungunya podem persistir por meses e até anos. No caso da dengue, as complicações são relacionadas à forma hemorrágica da doença. Por isso o paciente precisa estar atento a sinais de dor abdominal intensa e contínua (ou dor ao apalpar a barriga), vômitos persistentes e sangramento de mucosas.

“O chikungunya não causa sangramento, como se vê em casos graves da dengue”, explica o infectologista e imunologista Esper Kallás, professor de Imunologia Clínica e Alergia da FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo).

Exatamente devido às diferenças sutis, o diagnóstico clínico é muito difícil porque as três doenças apresentam sintoma de febre e têm diferentes combinações e intensidades de dores musculares e nas juntas, dor atrás dos olhos, sensação de prostração e falta de apetite. Além disso, a dengue e o chikungunya possuem formas brandas que podem ser confundidas com o zika vírus, e vice-versa.

Dengue mata mais, mas chikungunya afeta corpo por mais tempo

A dengue é a mais mortal das três doenças. “O chikungunya tem maior morbidade porque as dores nas juntas podem persistir por meses e até anos, evoluindo para a forma crônica, o que pode acontecer em até 30% dos casos”, explica Marise Oliveira Fonseca. No caso do zika vírus, não há relatos de mortes causadas pelo vírus, mas como a dengue, é preciso tomar cuidado para que não haja complicações hemorrágicas, ou seja, não fazer uso de medicamentos com base em ácido acetilsalicílico e drogas anti-inflamatórias.

Mesmo com uma mortalidade maior do que as outras, o imunologista Esper Kallás afirma que a porcentagem de mortes é muito baixa. Ele citou o exemplo de São Paulo, que teve 15 mortes confirmadas, de acordo com o mais recente balanço divulgado pela prefeitura, em um universo de 57.794 casos confirmados da doença. “É claro que é uma epidemia, mas ela tem uma frequência baixa de mortalidade. No geral, as pessoas morrem porque têm outros problemas de saúde associados”, afirma.

Nem toda pessoa infectada desenvolve os sintomas

Segundo o Ministério da Saúde, os sintomas do zika vírus se manifestam em apenas 18% dos casos de infecção. De acordo com o infectologista Esper Kallás, a capacidade de infecção do chikungunya é menor do que a da dengue por causa da mobilidade das pessoas. Segundo ele, a cada dez pessoas picadas e infectadas com dengue, apenas duas desenvolvem os sintomas e ficam prostradas sem poder sair de casa. “As outras oito terão sintomas leves ou não sentirão nada. Então, poderão ir ao trabalho, faculdade, viajar e, assim, ajudar a transmitir o vírus em outros lugares”, conta.

No caso da febre chikungunya, a cada dez pessoas picadas e infectadas, nove terão sintomas que debilitam. “Elas têm febre alta, mal estar, dores nas juntas e não vão conseguir circular, viajar. A disseminação é limitada porque os sintomas dificultam a mobilidade”, afirma.

Ao sinal de sintomas, diagnóstico é o de menos, o importante é procurar um médico

Do ponto de vista clínico, o importante não é identificar de qual a doença se trata, mas saber identificar os sinais de gravidade, principalmente da dengue.  “Se eu estou no hospital Sírio Libanês, posso pedir exames para comprovar qual doença afeta o paciente a fim de satisfazer uma curiosidade dele, talvez. Mas se estou na rede pública, em um hospital no interior do Nordeste e o paciente está com um quadro febril agudo, dor no corpo e uma vermelhidão que apareceu depois do surgimento dos primeiros sintomas, não é importante saber qual das três é. Eu preciso tratar para que não haja complicações”, afirma Esper Kallás.

Ainda segundo ele, o diagnóstico preciso é importante, mas do ponto de vista epidemiológico. “A confirmação dos casos só é importante por critérios epidemiológicos, para que as autoridades identifiquem e controlem o foco da doença, evitando surtos”, diz.

O mesmo mosquito transmite dengue, chikungunya e zika

A dengue, o chinkungunya e o zika vírus são transmitidos pelo mesmo vetor: o mosquito Aedes aegypti. Ao picar uma pessoa infectada com o vírus, a fêmea dos mosquito passa por um período de incubação e, após oito a dez dias, já está apta a transmitir a doença à próxima pessoa que for picada.

Essa característica do Aedes aepyti de transmitir três doenças diferentes é comum a outros insetos. Segundo a professora do departamento de Clinica Médica e Infectologia da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), Marise Oliveira Fonseca, os vírus encontraram no mosquito um ambiente favorável para se instalar e se reproduzir. “Há uma adaptação do vírus ao mosquito, que consegue não só recebê-lo, mas também dar condições para que ele se multiplique”, diz.

O infectologista e imunologista Esper Kallás, professor da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo), explica ainda que o Aedes aegypti tem potencial para levar outros tipos de vírus. “Em laboratório, já foi provado que o vetor pode ser infectado com febre amarela e febre de mayaro. Na vida real, deve haver algum fator restritivo que impede que isso ocorra”, conta.

A febre de mayaro é transmitida pelo mosquito Heamagogus, o mesmo da febre amarela, e é “prima” do chikungunya, por ser causada por um vírus pertencente à família dos togavirius.

Prevenção é a mesma para dengue, chikungunya e zika

Apesar de serem doenças diferentes, a forma de prevenção é a mesma: evitar a proliferação do mosquito, ou seja, erradicar locais de acúmulo de água parada. Se os criadouros não forem destruídos, além da dengue, há grandes chances de que haja uma epidemia de chikungunya no Brasil, segundo os especialistas. “Temos o vírus do chikungunya e o mosquito transmissor circulando em várias regiões do Brasil. Então é apenas uma questão de tempo. Pode ser que a epidemia aconteça no próximo verão”, afirmou o hematologista Alfredo Mendrone Junior.

Marise Oliveira Fonseca, que também é coordenadora do Ambulatório de Viajantes da UFMG, afirma ainda que o fluxo de pessoas viajando para países onde há a presença massiva do vírus é cada vez maior. “Se as pessoas forem infectadas no Caribe, África e Ásia, lugares epidêmicos para a doença, e voltarem com o vírus no corpo ao Brasil e forem picadas pelo mosquito, pode ser que ele passe a circular e se espalhar naquele local”, afirma.

Na teoria, é possível pegar as três doenças (ao mesmo tempo)

“Já existem relatos de coinfecção por dengue e chikungunya durante a última epidemia dessa última doença no Caribe, no final de 2014. Em teoria, seria possível até pegar os três vírus ao mesmo tempo”, afirma o hematologista Alfredo Mendrone Junior, professor da USP (Universidade de São Paulo) e diretor da ABHH (Associação Brasileira de Homeopatia e Homotoxicologia).

O médico da família e vice-presidente da SBMSC (Sociedade Brasileira de Medicina da Família e Comunidade), Daniel Knupp, explica, no entanto, que isso é pouco provável. “Uma pessoa que tem dengue por um dos quatro sorotipos, por exemplo, fica temporariamente imune aos outros três por pelo menos três meses, além de ter uma imunidade duradoura do sorotipo que teve a doença. Esse equilíbrio pode acontecer com outros vírus semelhantes. Por isso seria raro, mas em teoria, pode sim acontecer”, diz.

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