Sobre fascismo e a arte de comer picanha

Luciano PiresEscrevi um artigo recente sobre uma onda de escritores de tendência liberal, conservadora, progressista-arrependida e outros que, na contramão do pensamento esquerdista que domina amplos setores da sociedade, vêm trazendo diversidade às discussões. Como era de se esperar, tomei bordoadas, a maioria vinda de gente que não consegue conviver com quem pensa diferente. Nada de novo, portanto.
Além do discurso ensaiado que rotula os não-progressistas de semeadores do ódio, fascistas ou coisa parecida, o adjetivo “exagerado” apareceu com frequência. Também não foi a primeira vez. Sempre que menciono um desses autores não-progressistas em meus textos e programas, aparece alguém dizendo que detesta o fulano, que é um idiota e que exagera nos argumentos, xingamentos e quetais.
Mas a coisa não tem uma só mão. Recentemente, depois de publicar uma frase de Mao Tsé Tung em minha página no Facebook, fui duramente criticado por dar espaço a esse monstro. E quando publiquei uma de Adolf Hitler? Vixe…
Bem, aí é que vem a arte de comer picanha.
Para começar, farei uma afirmação politicamente incorreta que escandalizará muita gente. É quase uma confissão de culpa: eu adoro picanha. E foi comendo picanha que aprendi a ler os autores “exagerados”, de direita, de centro, de esquerda, de cima e de baixo.
Quando vou a uma churrascaria e o garçom chega com a picanha, ajudo a pegar o pedaço, coloco no prato e imediatamente corto fora o excesso de gordura, com capricho. Tem gente que jura que é a melhor parte que eu jogo fora, mas não dá, desde criança não suporto gordura na carne. Não desce… Deixo só um pouquinho da gordura mais tostada, mas corto fora 95%, o excesso, e fico com o miolo suculento. Hummmm…

Com os autores que leio, ouço ou vejo, faço a mesma coisa. Pego a picanha que eles oferecem, lambo os beiços e corto fora o excesso de gordura. Relevo os exageros, passo por cima dos xingamentos, contorno os ódios ou qualquer manifestação de intolerância ou fundamentalismo e vou no miolo, no que realmente interessa. Um argumento precioso, um ponto de vista original, uma indicação de autor desconhecido, uma informação escondida, o nome de um livro que abre horizontes, um site ou blog que me leve a descobrir novos conteúdos, um filme, peça de teatro ou música que corra por fora das listas dos dez mais e que são deliciosos… Tudo isso está lá, no meio da picanha gordurosa. Se eu desistir de comer a picanha por causa da gordura perderei acesso a todas essas descobertas, entendeu?
Por isso trafego tranquilamente em meio a autores de todas as inclinações políticas, ideológicas, sexuais, futebolísticas e carnavalescas e quase sempre descubro algo que vale a pena. Até mesmo com certos esquerdistas hidrófobos (rerere) que leem uma coisa e entendem outra.
Por isso recomendo: antes de dizer “não comi e não gostei” ou “não leio esse idiota”, faça uma experiência: tire o excesso de gordura. Você pode ter uma surpresa deliciosa.
Mas nem sempre dá certo, viu? Tem uns aí que, se tirar a gordura, sobra nada.
Luciano Pires