Sindicato do CE diz que vaia não era para cubanos, mas para gestores

O presidente do Simec (Sindicato dos Médicos do Ceará), José Maria Pontes, afirmou que as vaias na saída do curso dos médicos estrangeiros, ontem (26), em Fortaleza, foram direcionadas aos gestores do curso e que o grito de “escravos” dirigidos aos cubanos “não foi no sentido pejorativo”.

Manifestantes ligados ao Sindicato dos Médicos do Ceará protestam durante a passagem de médicos estrangeiros
Manifestantes ligados ao Sindicato dos Médicos do Ceará protestam durante a passagem de médicos estrangeiros

“Ninguém hostilizou os médicos cubanos. As vaias que saíram foram direcionadas aos gestores. Durante toda a manifestação, repetimos várias vezes que não estávamos ali para praticar violência, mas que não íamos aceitar que fosse utilizada a mão de obra escrava dos médicos cubanos”, disse.

Para ele, o fato de os cubanos não terem direitos trabalhistas ao participar do Mais Médicos e de não poderem trazer a família são elementos que caracterizam a relação de trabalho como escravidão. “Quando os manifestantes gritaram ‘escravo, escravo, escravo’, não foi no sentido pejorativo, foi no sentido de defesa, de que eles estão submetidos a trabalho escravo e que estamos lutando para mudar aquela relação, aquele vínculo”.

Segundo Pontes, as vaias eram voltadas principalmente ao secretário de gestão estratégica e participativa do Ministério da Saúde, Odorico Monteiro. “Só que quando eles saíram [do prédio], eles saíram juntos, então não dava para separar as vaias. [Os cubanos] São colegas médicos explorados, eles não têm culpa”, afirmou.

Ele disse que o sindicato não pretende fazer uma retratação, mas que irá fazer uma nota de esclarecimento com sua versão sobre o ocorrido.

Hoje, o Ministério da Saúde e entidades de saúde do Ceará fizeram um desagravo aos médicos estrangeiros e classificaram de “intolerância, racismo e xenofobia” o protesto feito na noite de ontem pelo Simec contra o programa.

O Conselho Estadual da Saúde divulgou uma nota, que teve apoio do representante do ministério, elogiando os cubanos e pedindo respeito aos estrangeiros. O secretário de gestão estratégica e participativa do ministério, Odorico Monteiro, afirmou que foi agredido por empurrões, tapas e um ovo, mas que os estrangeiros só foram agredidos verbalmente.

MAIS MÉDICOS

O Brasil tem recebido médicos estrangeiros em várias capitais desde a semana passada. Alguns são provenientes do programa Mais Médicos e outros com base num acordo firmado com o governo cubano, uma vez que algumas cidades não tiveram inscritos pelo programa federal.

Médicos brasileiros têm protestado contra as duas iniciativas alegando que eles deveriam passar pelo exame Revalida, usado por pessoas que se formam em medicina no exterior para validar o diploma.

A importação de 4.000 médicos cubanos também é questionada pelo Ministério Público do Trabalho por questões trabalhistas e também por conselhos regionais de medicina.

Os profissionais cubanos não vão receber diretamente do governo brasileiro. O salário será repassado ao governo de Cuba, que distribuirá uma quantia aos médicos.

Fonte: Folha SP