Sempre há o que aprender

entrelinhas

 

Às vezes, damos credibilidade apenas ao falado por aqueles que julgamos serem dotados de saberes científicos, acadêmicos. Os quais fazem uso de termos técnicos, dão explicações extensas sobre dúvidas simples que surgem entre os ‘comuns’, sem determinado saber específico. Muitas vezes dizem muito, entretanto, não o suficiente para responder ao questionamento feito, ao final, a pessoa permanece sem saber o que precisava. Tais intelectuais pecam pelo abuso de saber. É… Ou por serem incapazes de adequar seus discursos aos de seus interlocutores. Logo, não são tão inteligentes quanto buscam parecer.

Muitos destes ‘intelectuais’ são desprovidos de uma característica imprescindível, a humildade. Há uma reflexão interessante feita por um sábio formado no mundo e pelo mundo. Um homem inteligente que representa a máxima do pensamento de Paulo Freire, grande estudioso da educação: “a leitura do mundo precede a leitura da palavra”. O homem em questão aprendeu com a leitura do seu mundo a ler a palavra, e lê-la de maneira crítica, tirando dela os ensinamentos necessários para interferir em seu contexto, ser sujeito de sua história. Ele não é conhecido, mas o que sabe possui grande valor para os poucos que o conhecem. Disse que “a humildade reforça o talento, não tira a imagem de quem estudou”, Davi Cardoso Félix.

Pois é, uma fala simples, todavia carregada de um significado relevante, de um ensinamento necessário aos nossos tão enaltecidos estudiosos que, quase sempre, esquecem que são seres humanos como outro qualquer, e que os saberes se completam. Eles simplesmente se fecham em uma espécie de redoma, não permitindo que conhecimento algum diferente do que eles julgam ser o correto penetre. Quando não cometem o erro de humilhar implícita ou explicitamente outrem, seja dando explicações desnecessárias apenas para provar ao outro sua ‘superioridade’ epistemológica, como se fossem carentes de reconhecimento ou sedento por louvores fervorosos. Dificilmente encontramos humildade presente nas falas ou ações destas pessoas. Por isso, todo seu conhecimento de nada vale, pois, um arrogante sempre será um asno, porque sua ignorância emocional impõe barreiras ao inteligível.

Esta ausência denota que não são tão excepcionalmente inteligentes como alguns os julgam. Talvez, a culpa seja ainda destes que os colocam acima dos outros, dando-lhes status de ‘os donos da razão’, fornecendo-lhes a famosa ‘carta branca’ em tudo, o que lhes permite até passar por cima da autoridade de outro, interferir nos afazeres alheios, sob pretexto de saber mais. Ah, pobres criaturas desprendidas de sabedoria e conhecimento! Sujeitos que desconhecem frases tão importantes quanto a já citada parágrafos anteriores, quanto outras, consagradas por terem conseguido ultrapassar as barreiras presentes no mercado editorial e pelo talento dos escritores, tornando-se celebres: “mestre não é quem sempre ensina, mas, quem, de repente aprende.” Guimarães Rosa. E todos que possuem certo conhecimento devem colocar-se na condição de mestre, pois o que é conhecimento se não aquilo que podemos passar aos outros? Qual a sua significância se o guardarmos em nós, como mais uma atitude egoísta da raça humana? Não. Se sabemos devemos sim passar adiante, entretanto, lembrando que o que deve haver é uma troca recíproca, pois temos sempre algo a aprender, seja com alguém que nunca publicou um livro, seja com quem possui uma cadeira na ABL.

Carla Félix é formada em Letras Vernáculas pela Uneb/Campus x. Revisora, redatora e editorialista; atua em jornal e sites de notícias da cidade.