Rede Globo aliena?

Cotidiano Petrina

“Nós estamos no tempo do Youtube. Não adianta nada a Rede Globo colocar o helicóptero em cima da Assembleia Legislativa e dizer que ‘vândalos estavam quebrando a Assembleia Legislativa’ para cinco minutos depois ela ser desmentida com imagens do Youtube da população cantando o Hino Nacional e sendo atacada com bombas. Que fique claro para os políticos e para a grande mídia: o tempo da mentira e da manipulação fácil já passou”. Essa é a fala do vereador Renato Cinco, do Rio de Janeiro, durante sessão da Câmara.

Nos últimos dias, numa onda de protestos, manifestações de todo tipo e para tudo, em que o povo resolveu mostrar seu descontentamento com fatos sérios e/ou bizarros do cotidiano brasileiro, aparecem os oportunistas tentando tirar o foco do problema maior: a crise política que existe em nosso país e que há anos empurramos com a barriga.

Mas, não é dela que vamos falar, pois, agora, até mesmo quem há pouco tempo dizia não gostar de política, se acha crítico ferrenho e já encheu o conteúdo de noticiários e redes sociais com bobagens a esse respeito. Estamos aqui para falar de Rede Globo.

Em uma manifestação, os brasileiros ali presentes atacaram ao jornalista global Caco Barcellos e sua equipe com palavras de baixo calão direcionadas a ele e à emissora. Exigindo também que eles se retirassem do protesto, como se a Globo, naquele momento, representasse os políticos corruptos que são alvos das manifestações.

Todos os dias é mais do que um ritual meu, é uma oração matutina, ligar nos noticiários da Globo. É como ver o horóscopo diário; tenho que ver quais foram os últimos acontecimentos do mundo pela Globo. E ao saber de uma notícia em outro canal tenho que consultar a Globo para ter certeza que ‘é fato real’.

As críticas feitas por jornalistas da rede Globo ou do Globo News são convincentes, e para um telespectador e/ou leitor incauto aquilo é o único ponto de vista a ser considerado. Não para mim. Eu, como alguns, discordo em diversos pontos de alguns jornalistas daquela emissora, assim como condeno atitudes por darem ênfase a algumas notícias e retirarem a visibilidade de outras.

A imprensa, como dizem, é hoje o quarto poder. O quinto são as redes sociais, mas essas já estão se impondo e mostrando que veio para superar qualquer outra forma de globalização. A imprensa tem que mostrar que tenta ser imparcial, apesar de que isso é impossível, uma vez que, se trata de pessoas que trabalham nela e pessoas têm posicionamentos políticos a todo o momento. Algumas mídias de grande credibilidade, atualmente, não podem mais deixar claro seu posicionamento.

Como diz o vereador Renato, “estamos na época do Youtube”, qualquer um com um celular na mão pode ser ‘repórter’ por alguns minutos, levar informação a todo mundo. E por esse motivo a falta de educação e falta de senso crítico de grande parte dos brasileiros não deve ser colocada como responsabilidade da Rede Globo.

A Globo tem novelas de qualidade que viciam mais do que livros? Tem programas de auditórios que promovem mais debates do que um bate-papo com nossos vizinhos? Tem jogos de futebol tão animados que não nos deixam sair de nosso sedentarismo? Pois é, a culpa por nossa escolha de nos manter ignorantes, calados e sedentários, não é da Globo. Ela, ao contrário, até dedica horas para ‘incentivar’ o nosso ‘conhecimento’.

Retirar o foco dos protestos e atacar a quem noticia o protesto é mais uma prova de nossa alienação, e eu pergunto: foi a Rede Globo que pediu isso? Passar a escolher e amar outro canal de rede aberta solucionaria o problema? Escolheríamos qual, se uma está a serviço do marketing pessoal do próprio dono, a outra a serviço de determinada igreja, a outra não sabe a quem serve e só quer saber de sensacionalismo, e assim por diante. Voltaríamos a Globo como volta aquele ‘ex’ que, arrependido, implora perdão.

A Globo não aliena, não manipula. No entanto, ela dá a informação que quer, da maneira que lhe for conveniente. Cabe ao telespectador, ouvinte e/ou leitor (já que encontramos a rede Globo em todos os suportes: TV, rádio, internet e meios impressos), ter o bom senso e a perspicácia de procurar outros veículos e outras críticas, e se não for exigir muito, não se contentar com o debate entre quatro paredes ou na frente de um computador e ir às ruas.

Petrina Nunes é professora e repórter, formada em Letras pela Uneb/campus x.