Paternidade participativa: o papel dos pais contemporâneos

Apesar das transformações psíquicas que a chegada de um bebê provoca no pai, os modelos provenientes da família de origem desse pai e referenciais de paternidade patriarcal ainda caracterizam seus diferentes posicionamentos em relação aos cuidados oferecidos ao bebê. Dessa forma, a ideologia patriarcal situa homens e mulheres em posições essencialmente opostas.

Para investigar os referenciais provenientes do modelo patriarcal de paternidade e do modelo contemporâneo que vem sendo denominado de paternidade participativa, a psicóloga Carine Mendes desenvolveu uma pesquisa de mestrado para acompanhar pais ao final do período gestacional e no início do puerpério. O intuito era observar a apropriação do papel de cuidador por esses pais.

Nesse novo processo de constituição parental, de acordo com a pesquisadora, “as mães apresentaram atitudes tanto de rivalidade diante da relação pai-bebê como de confiança nas capacidades do pai de se introduzir de forma adaptativa nesse momento”. Logo, o comportamento das mães e a capacidade de dividir um cuidado que por muito tempo caracterizou a primazia da maternidade foi um elemento de fundamental importância para a inserção dos pais como cuidadores ativos.

Ao entrar para o mercado de trabalho, a mulher se tornou financeiramente independente do homem e este, por sua vez, vem sendo cada vez mais solicitado a fazer parte do ambiente doméstico. Essas mudanças têm viabilizado relações mais afetivas e acessíveis entre pais e filhos, desmistificando a ideia de que amor e cuidados infantis partem exclusivamente da mãe.

O pai, como um cuidador participativo, ganha espaço e começa a estabelecer diferentes dinâmicas afetivas. No entanto, embora o pai se mostre mais engajado durante o período gestacional, algumas instituições de saúde ainda priorizam o binômio mãe-bebê em detrimento do trinômio pai-mãe-bebê. “O pai é ignorado em seu papel de cuidador e excluído do acompanhamento ao crescimento fetal e do nascimento do bebê”, problematiza Carine.

Outro exemplo dessa visão é a legislação trabalhista brasileira que concede 120 dias de licença maternidade e somente cinco dias de licença paternidade, ignorando a importância do vínculo inicial entre o pai e o bebê e perpetuando a ideia de que a mãe é a cuidadora e o pai o provedor. Portanto, a mulher deve permanecer com o bebê enquanto o homem deve voltar ao trabalho.

Diante das diversas transformações sociais e econômicas ocorridas nas últimas décadas, como por exemplo, reavaliação da autoridade do pai no mundo moderno, divisão das obrigações financeiras entre os familiares e diferentes tipos de definições de família, a posição masculina se alterou e permitiu a flexibilização de papéis e funções.
Essa nova mentalidade pai-mãe-filhos, que é mais democrática, parte de mudanças nas dinâmicas e nos referenciais familiares transmitidos ao longo das gerações, o que não significa uma ruptura com os modelos anteriores, mas, sim, uma reinterpretação do papel do pai.

Carine destaca, no entanto, não haver padronização, pois pais e mães estabelecem contatos e interações a partir de suas características individuais. “A importância da participação do homem em cuidados que eram exclusivos das mulheres se situa na possibilidade de expandir a qualidade destes e fortalecer o vínculo entre o pai e o bebê desde os primeiros momentos de vida”.