O lixão

Luciano PiresUm dos primeiros posts que fiz em minha página do Facebook este ano foi uma foto da praia de Copacabana na manhã do dia primeiro de janeiro de 2014. A imagem mostra o povo que permaneceu na praia até os primeiros raios de sol após o reveillon em meio a toneladas de lixo de todo tipo. Uma imagem de estarrecer. Veja o post:

LixãoPubliquei a foto, identificando data e local e lancei uma provocação: “deixo o comentário para você”. Uma enxurrada de cerca de 200 comentários tomou conta do post em questão de minutos, a maioria absoluta – como era de se esperar – manifestando sua indignação com a falta de educação e cultura de um povo capaz de largar tanto lixo num local tão bonito.

Alguns comentários traziam fotos de outras partes do mundo, como Londres, Times Square em Nova Iorque, Sidney na Austrália, também com lixo largado no chão. É evidente que reunir milhões de pessoas em qualquer lugar do mundo, deixará um saldo de lixo, mas independente da questão do “quanto lixo?”, olhar o acontecimento apenas sob esse ponto de vista me parece aquilo que chamo de “síndrome de PT”: “Tá tudo bem. Os outros também fazem, a gente faz também.”

Em meio aos comentários, surgiram alguns minimizando o problema e dizendo: “o povo suja, mas a prefeitura limpa imediatamente”, numa lógica maluca que se aplicaria a “o assassino mata, mas a polícia prende imediatamente”. Aquele maldito “mas” sobre o qual já escrevi anteriormente e chamei de Conjunção Coordenativa Escusativa, lembra? Aquela que prepara a desculpa, transfere responsabilidades para terceiros, justifica desmandos, atenua consequências e torna normal e aceitável aquilo que deveria ser rechaçado por imoral, ilegal ou desonesto?

A turma da Conjunção Coordenativa Escusativa é aquela que transfere o problema para o estado: “Tudo bem, o estado cuida. O que é de todos, não é de ninguém”. São os que defendem o coletivo, tirando do indivíduo a responsabilidade pelo mal feito. Essa é a vanguarda do atraso, dos que querem direitos sem deveres, dos que se contentam com a tutela do estado, dos que acham que liberdade é libertinagem.

E sabe o que é o pior? Quem escreveu essas barbaridades não foram estúpidos iletrados, ignorantes, gente “do mal”. Foram pessoas como eu e você, que têm acesso à educação, que mantém suas páginas nas mídias sociais, que pela escrita tem educação e cultura e que querem realmente o bem comum. Mas que não admitem que a culpa possa ser do indivíduo.

Pois é. É aí que mora o perigo.

Em 2014, fique de olho neles.

Luciano Pires