Notas de sangue

Mariara site“O Espírito do Soberano, o Senhor, está sobre mim, porque o Senhor ungiu-me para levar boas notícias aos pobres. Enviou-me para cuidar dos que estão com o coração quebrantado, anunciar liberdade aos cativos e libertação de trevas aos prisioneiros” (Is 61; 1).

Se não tiver estômago forte ou alma culpada não prossiga a leitura, porquanto irás se sujar de sangue, pois cada nota, palavra ou sentença lavrada, traduzem não uma especulação panfletária sobre as vilezas do homem moderno, mas a crueldade a que são submetidas estas tais vidas escravas, ora relatada nestas linhas não menos sangrentas.

Em uma terra sem homens, (no men lands), mas repleta de donos que exercem o poder magistralmente, chegam ao absurdo de institucionalizar o crime, legalizando-o com seus argumentos indefensáveis, protegidos, pois, estão, pela “imunidade política” concedida por sua vinculação a organismos internacionais de expressão mundial.

Duplamente acorrentada: moral e fisicamente. A trajetória de Mara se entrecruza com a de Oxana, duas flores arrancadas de seu habitat, desfolhadas de modo vago, rude e violento. Gradativamente, esta flor, de perfume inigualável e de beleza antes nunca vista, atravessa um processo degenerativo substancial para o encerramento de sua existência, sem o elixir da vida tão almejado pelos alquimistas, sua matéria se decompõe e paralelo a isto suas pétalas começam a murchar.

Murcha então, a flor-mulher, Mara, na barbárie orquestrada pela indústria criminosa da prostituição e tráfico de seres humanos. Negociatas, barões do dinheiro, novos escravocratas cambiam corpos, vivos ou mortos? Tombados, anulados, sem nome, sem endereço, sem família, sem polícia, sem direitos, sem humanidade, sem pátria, com sua clandestinidade, alimentando a fome insaciável de seus donos… Apagaram a lei áurea! Consumiram os ideais de Liberdade, Igualdade e Fraternidade no zavtrak, varreram das nações a Declaração dos Direitos Humanos.

Uma voz persuasiva a seduzira, os olhos de Mara cintilavam, a imaginação fervia de sonhos e fantasias interrompidos ao meio- dia. Transportada por caminhos serpenteados, no limite fronteiriço presente- passado, lança-se na expectativa de um voo perfeito.

Com o passaporte em punho, despede-se do mundo dos vivos, deliberadamente, e entra para o dos moribundos. Mara, pintada com um código de barra, cuja sequência numérica indicada na etiqueta, denunciava ser mais um produto à venda numa prateleira. O que ficou do tráfico? A saudade dos outros, da liberdade, da vida_ a voz embargada_ “de mim  mesma”.

Sempre fica alguma coisa, por um lado:  fios de cabelos arrancados, hematomas, uma, duas, três fraturas nos braços, pernas, afundamento de crânio, dentes quebrados, o  jardim particular violado… além do medo de quebrar as algemas.

Da última vez que havia tentado rastros de sangue por ela havia sido deixado, seus donos teriam introduzido uma barra de ferro no ânus da menina como punição por decidir lutar por sua própria vida.

Infinitas são as tonalidades, amarelo, branca e violeta…  tipos e formas suaves ou grosseiras, mas para todas  murchar  longe de casa é uma das poucas certezas, convivendo com a dor e as chagas da prostituição… a verdade desnudada,  manchada de sangue, borrando as tais leis humanitárias, porque  UM CRIME ainda SEM LEI EM ALGUNS PAÍSES DO GLOBO, E QUE CONTINUARÁ A FAZER VÍTIMAS SE NÃO NOS OPORMOS ENERGICAMENTE a tais práticas.

O pai de uma vítima do tráfico sexual enviou um apelo comovente para a Avaaz:
“A minha filha Oxana era um menina linda e maravilhosa, muito hábil com idiomas. Ela deixou a nossa casa aos 20 anos para assumir o trabalho dos seus sonhos como tradutora na Europa. Nós ficamos muito felizes por ela, no entanto, 3 semanas depois a polícia nos disse que ela morreu ao pular do quinto andar de um prédio, tentando escapar dos homens que a enganaram oferecendo o emprego e forçaram-na a se prostituir. Eu morri quando ela morreu. Agora eu vivo para impedir que isto aconteça com outras meninas. Por favor, me ajude.”

Maiane tirinha

Formada em Letras Vernáculas pela Uneb/campus X
Pós-graduada em Ensino de Língua Portuguesa e Literatura/ Uniasselvi
Pós-graduada em Educação de Jovens e Adultos (Eja) / Uneb