Minha ideia, minha obra

Luciano PiresEm meio à polêmica das biografias e o choque de ver alguns de nossos ídolos defendendo posições muito próximas da censura, vale reler um dos textos que publiquei em 2009 em meu livro Nóis…Qui Invertemo As Coisa.
Almocei num restaurante que passava nas telas de plasma o show “Kaia na gandaia” de Gilberto Gil. O show é uma homenagem ao reggae de Bob Marley. Gil canta e encanta, dança e ilumina. Uma delícia. Mas… Tinha gente com cara feia na mesa.
– Odeio o Gil.
Gil era ministro aliado ao governo do PT, portanto tudo que fizesse devia ser execrado. Não interessa sua história como artista, seu valor como poeta, sua capacidade como músico e intérprete. Até quem não gosta dele reconhece sua importância na história da Musica Popular Brasileira.
Mas Gil estava contaminado. Por uma “ideologia”. E uso a palavra “ideologia” entre aspas, pois não sei se o circo político brasileiro tem algo que se possa chamar de ideologia.
Interessante essa dificuldade que a gente tem de separar a pessoa da obra da pessoa, não é? Basta que o poeta abra a boca para uma declaração política e pronto! Contamina-se.
Essa separação “ideológica” em grupos, tribos, castas, raças, pode ser um indicador da qualidade da inspiração, da obra, da arte das pessoas? Quando fala de saudades o comunista fala melhor que o capitalista? O amor do católico é melhor que o amor do muçulmano? A arquitetura de Oscar Niemayer é ruim por ele ser comunista? Um músico negro toca pior que um branco? Um verso como “Ai, como essa moça é distraída / Sabe lá se está vestida / Ou se dorme em transparente”, de Chico Buarque, ficou ruim depois que ele disse que adora Cuba ou que votou em Lula? Para mim, não. Apesar de discordar do Chico político, continuo tiete do poeta, que é o que realmente me interessa.
Lembro-me da carreira de Wilson Simonal, destruída quando ele foi injustamente apontado como “dedo duro” pelas patrulhas que lutavam contra o governo militar. Repentinamente o carisma, o balanço e a simpatia do ídolo que arrastava multidões passou a não valer nada. Um rótulo ideológico destruiu o artista.

Tempos atrás tomei minha decisão. Quando o assunto é arte, só tenho reservas quanto a uma “ideologia”: o consumismo. Leia bem: con-su-mis-mo. Quando a arte é absorvida pelo comércio, deixa de ser arte. Morre.

A arte está acima da política, mas precisa da política. No entanto, não consegue contaminar a política. É a política que contamina a arte. E então as pessoas passam a odiar o artista, transformado em objeto político. O coração pede pra amar, mas a consciência manda odiar. Louco isso, não é?
– Ah, mas artistas são personalidades públicas. Têm responsabilidades como formadores de opinião!
Também acho. Mas aí o papo é sobre política, não é mais sobre arte.
Arte é para ser apreciada com os olhos da alma. Poesia vem do coração, da alma, de lugares onde a política não se mete. E quando se mete, é para usar a arte, não raro, soando falsa. Populista. Você consegue reconhecer isso no riso amarelo do político com a criança miserável no colo, no horário eleitoral?
A política – ao menos essa que está aí – reduz a complexidade de nossas vidas e o valor de nossos sentimentos a meros instrumentos de troca.
Mas eu me vacinei. Aprendi a apreciar o que quero e não o que alguém quer. Rótulos, quem dá sou eu. E na música, só ouço o que gosto. E o que gosto, para mim, é música boa, com eleição ou sem eleição, com partido ou sem partido, com ideologia ou sem ideologia.
Na hora de lidar com a arte, minha ideologia é meu coração.
Luciano Pires
PS: Mas que bola fora essa do Chico, Caetano, Gil, Milton, Roberto, Djavan e outros, hein? Suas obras continuam emocionantes, os artistas são admiráveis, mas parece que os homens envelheceram mal.