MICHAEL APPLE: ideologia e currículo  

MaianeMichael Apple é um teórico renomado na área de currículo, cujos trabalhos se encontram contextualizados em sua trajetória de engajamento nas lutas e conflitos políticos e sociais de sua época, razão pela qual muitos o alcunham de neo-marxista.

Nascido aos 20 de Agosto de 1940 em Paterson, New Jersey,    Apple é proveniente de uma família de pobres operários emigrantes, oriunda da Polônia, antiga URSS, possui uma trajetória marcada pela participação política em movimentos de cunho social, além de ter experimentado uma infância de fome e pobreza, ingressou cedo nos estudos de formação de professores, motivo pelo qual veio a posteriormente lecionar no exército, onde é requisitado para prestar serviço militar.

Na sequência continua o seu trabalho como professor em sua cidade natal, onde dá prosseguimento aos estudos, iniciando o curso de pós-graduação, por conseguinte, conclui o mestrado e por fim o doutorado.

Apple é o pioneiro a descortinar os intentos políticos do ato  educativo, e da estrutura curricular, propondo o exame acurado do conhecimento eleito no currículo, e dos interesses sociais vazados no conteúdo escolar,  por meio dos seus trabalhos produzidos no final da década de 60 e início dos anos 70.

A partir dos estudos realizados de algumas obras de Apple, pode-se afirmar que o currículo não é constituído por componentes alienantes, ele é sempre parte de uma tradição cultural, política ou da visão de mundo de algum grupo específico. Seu conteúdo, na maioria das vezes, provoca quebra dos paradigmas vigentes, irrompe em conflitos, segrega pessoas, subjetividades, confere a uns lugar de poder e a outros suprime qualquer tipo de soberania.

O currículo encontra nas ideias políticas, econômicas e culturais opostas sua maior expressão, haja vista que se amolda em um ambiente propício a desconstrução de ideologias previamente concebidas. Nessa perspectiva, o currículo não está atrelado a objetivos imparciais, vagos e imprecisos, destituídos de quaisquer intencionalidades críticas, mas representa um conteúdo de produção de política cultural, arraigado em pensamentos e práticas de “criação, recriação e, sobretudo, de contestação e transgressão.” (MOREIRA, 1994, p. 28).

Analogamente o currículo torna-se o tecido que reveste os pontos fulcrais da formação, na sua totalidade. Currículo é sinônimo de gerar, produzir, criar, e texto, podendo ser o não-texto, lócus de encontro e (des) encontros de ações, atitudes e ideologias. Examinar a concepção de currículo à luz das teorias críticas e pós-críticas é enveredar por um itinerário social, cultural e histórico sem volta, de uma dívida social impagável de décadas de exclusão, preconceitos, discriminação, na implantação de um currículo totalitário.

O sujeito particular é plasmado em sua subjetividade e identidade pela dimensão pedagógica do ensino e aprendizagem via matrizes curriculares. Uma análise cuidadosa supõe a explícita violação dos direitos humanos e do consequente ideal de democracia, na exposição de um currículo rechaçado pela esquerda, porque vinculado aos ditames de um Brasil capitalista, despreocupado em incluir as massas, e suas respectivas identidades culturais.

Resistir a quaisquer condicionamentos curriculares ou aos “sistemas de pensamento” 1 impostos pela escola exige uma política de resistência organizada, no sentido de trabalhar como alternativa em potencial do bloco hegemônico dominante, responsável pela cultura fabricada pela escola e por seus métodos de inculcação e assimilação.

[…] pode pensar-se no conhecimento como sendo algo distribuído desigualmante entre classes sociais e econômicas e grupos ocupacionais, diferentes grupos etários e com grupos com poder diferenciado. Assim, alguns grupos têm acesso ao conhecimento que lhes é distribuído e não é distribuído a outros […]. O déficit de determinados tipos de conhecimento [de um determinado grupo social] relaciona-se, sem dúvida, com a ausência de poder político e econômico que esse mesmo grupo revela na sociedade. Tal relação entre a distribuição cultural e a distribuição e controle da capacidade econômica e política – ou, mais claramente, a relação entre conhecimento e poder – é notoriamente de compreensão muito difícil.

(APPLE, 1982, p.08).

No entanto, a compreensão sobre a forma como o controle das instituições culturais permite o aumento do poder que determinadas classes para controlar outras, providencia a capacidade de uma profunda penetração intelectual sobre a forma como a distribuição da cultura se encontra relacionada com a presença ou ausência de poder em grupos sociais.

É neste histórico de falsa equidade social que deve ser incluído o pensamento de Apple, o qual faz recair sobre a escola e sua estratégia de escolarização as inúmeras falácias de um ensino voltado para a difusão e o acesso a tecnologia, ou ainda de uma escola guiada pelos pressupostos de igualdade social, ledo engano que converge para o fortalecimento do aparato ideológico que continua a controlar, confundir  e manipular discursos e práticas sociais.

Os estudos do referido autor objetivam alijar o discurso escolar assentado na ideologia neoliberal, presente na maioria das escolas sob a tutela do poder dominante, para seleção na distribuição de informações distintas, a diferentes tipos de pessoas e classes, as quais estão integradas a uma rede social, cuja posição se converte em condição sine qua non para auferição de lugar privilegiado na distribuição do poder.

Apple em sua obra Ideologia e Currículo ao ilustrar o exemplo do menino Joseph, traz à tona indagações sobre as causa do mesmo ter sido reprovado pela escola, e a posteriori pela própria vida, porquanto a última notícia que sua professora tinha tido era a de que estava em uma cadeia.

O currículo escolar não previu a lógica da vida de Joseph que, como outros tantos alunos, dormem na aula de Aritmética, em virtude de ter que passar as noites em claros, à espera da sua mãe, mas o currículo não fez um  prognóstico preciso ou aproximado das estratégias a serem utilizadas na Ed. Física, uma vez que aquelas não o atraía em nada, “todavia o sistema escolar pareceria manter-se como algo que sempre buscasse atingir padrões mais altos, e a estruturação do poder econômico e político daquela comunidade e do Estado continuariam ‘de vento em popa’” (APPLE, 1982, p. 10).

Maiane tirinha

Formada em Letras Vernáculas pela Uneb/campus X
Pós-graduada em Ensino de Língua Portuguesa e Literatura/ Uniasselvi
Pós-graduada em Educação de Jovens e Adultos (Eja) / Uneb