“João Bosco conseguiu, João Bosco destruiu”

entrelinhas

Ouve-se e lê-se com frequência reclamações sobre a saúde pública em Teixeira de Freitas. No entanto, até “sentir na pele”, você é incapaz de mensurar o tamanho do problema, bem como, tecer comentários sobre, afinal, devemos falar apenas sobre aquilo que temos certeza, do contrário, é reprodução, e isso, muitas vezes, é espalhar boatos.

Submersa em meus problema$, na terça de manhã, tive uma “queda da própria altura”, como classificou o enfermeiro que mui bem me atendeu na UPA 24h no feriado de finados. Isso ocorreu ao descer as escadas de minha casa do terceiro degrau achando ser o último. Tornozelo inchado em demasia, pressão de familiares e dores infindas, fui em busca de atendimento no feriado, posto que não comprometeria meu emprego a ausência (odeio faltar).

Asseguro-lhes que até todo o processo de triagem que culmina na espera por atendimento médico que definiria se estava, ou não, quebrado, só elogios aos que atendiam na Unidade. Mas, cá, a saúde teixeirense a mim se apresentou como é. Os médicos não chamavam 4 pacientes sem que se saíssem dos consultórios e se demorassem por 30 minutos, no mínimo.

A quantidade de pessoas em busca de atendimento aumentava de forma assustadora. De bêbados machucados a idosos debilitados em cadeiras de rodas. De tudo um pouco na UPA. E nada de o atendimento andar… Um paciente, ferido na cabeça, precisando que o médico o medicasse para sanar sua dor (curativos já tinha sido feito e raio X tirado), questionou a um dos profissionais a demora e, ainda, a possível ausência de uma vacina antitetânica, a qual fora receitada para ele. A resposta irritou a todos. “Nem salário de médico tem aqui há 60 dias, imagine antitetânica”.

Não sei os outros, mas, eu estava ali desde às 8h30, queria muito saber o que tinha meu tornozelo e ir pra casa, ficar com as criaturinhas que tornam minha vida melhor, meu esposo, meus bichos, comer o rango de mainha e seguir o tratamento.   Mas, pelo alvoroço da maioria, eu não era a única inflamada pela demora e ausência de explicação…

O médico que disse isso ao rapaz, em seguida, olhou seu raio X e , assim, receitou a medicação. Problema resolvido. Entretanto, a sala seguia cheia e o povo irritado. Quase 11 horas. Um dos médicos, bem empolgado, numa linguagem chula, eu sei, mas, que todos entendem, entrava e saia do consultório de minuto a minuto. Passeava pelo corredor. Irritada. Levantei com o celular em mãos e o segui, eu ia questionar algo, mas, desisti. A posição do meu celular fez as funcionárias da limpeza crerem que eu fotografei. Mas, embora eu tenha pensado nisso, pra anexar a foto e fazer uma reclamação formal no setor responsável se preciso, não o fiz.

Mas, elas começaram a gritar comigo. Eu não entendi e voltei ao meu assento e fiquei mexendo no celular, avisando meu esposo que iria demorar e meu celular só tinha 15% de bateria. Um segurança (?) se aproximou de mim e com dedos em riste disse “Ei! Você não pode fotografar aqui não”. As zeladoras, alteradas, falavam um monte. Eu, calma, tom de voz firme, mas, baixo, educada que sou, disse o que houve. Uma falou ter visto até flash. Apenas questionei “como um celular com 15% de carga poderia ter flash? Ao menos o meu não tem. Posso provar”. “Olha as fotos dela. Pega o celular.”

Pedi que baixassem o tom de voz comigo e entendessem que eu poderia fotografar sim, mas, tinha ciência que para uso das imagens teria que pedir autorização delas. Prossegui sendo a voz dos presentes e relatando o fato que suscitou tudo aquilo. Moral da história: ouvi de outros funcionários o relato de não recebimento desde setembro e quase que nos abraçamos pra chorar ali pela luta árdua para sustentar nossas famílias.

Outros se levantaram e coadunaram minha fala (obrigada! Somos mais fortes assim, brasileiros). Fui não só compreendida como me explicaram os problemas da UPA e que os médicos, não sempre, mas, por vezes, saem do consultório pra atender pacientes que chegam acidentados, AVC etc., porque são APENAS esses dois atendendo pra dar conta das emergências e dos atendimentos outros. Compreendi de forma crítica, mas, compreendi. De forma crítica porque penso que deveriam ser mais dois médicos, pelo menos, a fim de que ninguém ficasse desguarnecido e aquilo ali fosse, de fato, um Pronto-Atendimento.

Se eu estiver sendo injusta, perdão. Só que dói ver velhinhos debilitados esperando tanto tempo, ver pessoas chorando de dor, também em esperas longas. Inda assim, o médico que me atendeu, foi muito educado, solícito, e, também, explicou que o raio X não é impresso. Por isso, mais demora: ele tem que ir até a sala de raio X ver em tela, para, depois, chamar de novo o paciente e dar o ‘veredicto’.

Meu povo, não bastasse a falta de pagamento dos profissionais, todas as ambulâncias do Samu estão quebradas, virando sucata. “João Bosco conseguiu, João Bosco destruiu”. Bombeiros estão realizando alguns socorros de vítimas de acidentes, como presenciei a chegada de uma na UPA por eles acompanhada. Outra, foi trazida por um popular que presenciou o acidente. O pé parcialmente dilacerado. Antes, ligaram pra o Samu, mas, não podiam ir, “ambulâncias quebradas”. Só não está parado de tudo porque pegaram emprestada a ambulância da UPA 24h, esta última, por sua vez, está operando com uma ambulância de outro setor, não equipada.

O bom disso tudo é que o diagnóstico do clínico da UPA (um osso do tornozelo fraturado) estava errado. No Regional, agora, mais humano, mais vazio e não fedido (sim, temos que elogiar também), outro raio X, agora, à luz do olhar de um ortopedista, indicou ser ‘apenas’ um entorse. Nada de cirurgia ou gesso (eba!). Não critiquei o diagnóstico da UPA, porque lá não há especialista, e olhar em tela não é o mesmo que poder ter em mãos o raio X.

Em resumo, minha gente, se tem uma coisa que ainda está prestando na saúde pública de Teixeira de Freitas são os profissionais. Não são perfeitos. Mas, trabalhar sem receber, acreditem, é um pesadelo. Vamos valorizá-los mais. Vamos esperar que João Bosco pare de fazer merda neste final de mandato. Do contrário, ele vai ficar conhecido como o prefeito que mais trabalhou… pra destruir seu legado. A saúde está agonizando e essa culpa ficará nas costas de um médico. Coisa louca, não?!

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Carla Félix é formada em Letras Vernáculas pela Uneb/Campus x. Revisora, redatora e editorialista; atua em jornal e sites de notícias da cidade.