Homicídio consumado

Mariara siteNa tarde do dia 23 de abril, às treze horas, a equipe de investigadores da Delegacia, sob a presidência da autoridade policial, o Sherlock Holmes brasileiro, acompanhados do esquadrão da Morte, responsáveis pela perícia no local do crime e necropsia dos corpos, diligenciaram até a rua Morgue, esquina com a alameda dos anjos, com o fito de averiguarem a denúncia de um corpo decapitado no local sobredito,

Jornalistas chegam primeiro do que a polícia. Estavam todos ansiosos para devorar o cadáver morto, “porque vivo já era”. Fariam isso com suas fotografias e notícias pirotécnicas, as quais misturam ficção e realidade. Os repórteres movimentam o local do crime. Risadas, barulhos, confusões para a tirada da melhor foto e da “notícia em primeira mão.”

Enquanto isso, a polícia, respeitando a rotina diária, desloca-se tranquilamente para o cenário de horror.

Ao chegarem, sobriamente, o policial declara:

– Já morreu mesmo. Para quê a pressa?

– Um corpo, um corpo sem cabeça! – retrucou o bate-pau entusiástico.

– Relaxa. Isso acontece. É só deixar a cabeça aí dando sopa, que vem um esperto e a arranca fora.

Ao chegarem no local, os peritos procedem ao levantamento cadavérico da vítima sem cabeça: sexo masculino, cor parda, idade estimada de 24 anos. Pela análise do local, o esquadrão da morte logo constata que o algoz decepou a cabeça da vítima com um instrumento perfuro-cortante, arma branca. Em seguida, deve tê-la ocultado em lugar incerto e ainda não sabido. Todavia, ficou comprovado pelos rastros de sangue que a cabeça da vítima havia sido levada pelo autor do crime.

O corpo, em adiantado estado de decomposição, estava posicionado em decúbito ventral, trajando camisa preta e bermuda vermelha. Além disso, foi possível perceber uma tatuagem em forma de estrela na perna esquerda. Bichos saltavam do que restou do pescoço da vítima.

O bate-pau revela, indiscretamente, ao se aproximar do corpo:

– Vixi! Está parecendo um sapo com as quatros patas duras para baixo e o pescoço enfiado entre os ombros…

O policial sorri da asneira e ignorância do bate-pau, mas pressente que a comparação não era infundada.

Naquele momento ambos sorriem da morte. Grotesca forma de morrer, grotesca forma de viver, do bate-pau e do policial. A resolução desta equação indica que quando x e y se equivalem, a resposta é inegavelmente válida.

Maiane tirinha

Formada em Letras Vernáculas pela Uneb/campus X
Pós-graduada em Ensino de Língua Portuguesa e Literatura/ Uniasselvi
Pós-graduada em Educação de Jovens e Adultos (Eja) / Uneb