Crianças têm consciência quando adotam atitudes maldosas?

maldade-infantilVez ou outra, o cinema as retrata. Desde Henry Evans (Macaulay Culkin), o menino bonitinho que tenta matar o próprio primo em “O Anjo Malvado”, até o assustador Kevin (Ezra Miller), que provoca uma tragédia sangrenta envolvendo quase toda a família em “Precisamos Falar Sobre o Kevin”.

Na vida real as crianças que cometem maldades difíceis de encarar também existem, como mostra o caso do assassinato brutal do menino inglês James Bugler, em 1993, quando ele tinha três anos. Além da vítima ser uma criança pequena, o crime chocou pois foi cometido por outras duas também crianças, Jon Venables e Robert Thompson, ambos com dez anos.

A pergunta que fica para quem assiste a esses filmes ou se depara com casos como o de James na televisão é uma só: será possível uma criança ser genuinamente má? A resposta também é apenas uma: sim, é possível.

No filme ‘Precisamos Falar sobre o Kevin’, a mãe Eva, interpretada por Tilda Swinton, enxerga a maldade do filho, mas não consegue encarar o problema do menino

É preciso, no entanto, distinguir uma maldade infantil natural, típica da idade, de um sério distúrbio que pode resultar em um comportamento psicopata. Mas detectar esse distúrbio é delicado e os pais devem levar em consideração diversos fatores.

“Se juntarmos repetição de um comportamento agressivo ou maldoso sem motivo aparente; generalizado, ou seja, a criança não é agressiva apenas na escola ou em casa; ausência de arrependimento e culpa; falta de afetividade; dificuldade de lidar com frustrações e total falta de empatia com o sofrimento alheio, temos fortes indicativos de que tem algo errado com a criança”, enumera Ana Beatriz Barbosa Silva, médica psiquiatra e autora de “Mentes Perigosas: o psicopata mora ao lado” (Editora Objetiva).

A falta de afetividade na infância é um dos indicativos mais preocupantes. As crianças tendem a ser naturalmente encantadas com seus pais. Já para quem tem transtorno de conduta isso não vem de forma tão natural. Na verdade, o afeto gratuito – ou seja, sem que a criança ganhe algo em troca, como um brinquedo ou um doce – é praticamente inexistente.

Outro sinal é o gosto pelo sofrimento, seja de outra pessoa ou de um animal. “Se você tem um filho com 10 anos que continua fazendo xixi na cama – a enurese noturna tardia é apontada por muitos especialistas como um dos sinais da presença de transtorno de conduta – e mata filhotes de animais significa que ele vai se tornar um psicopata quando for adulto? Não, mas significa que ele não está bem”, alerta Ilana Casoy, especialista em Criminologia e escritora.

A idade também é fator importante na equação. “O comportamento agressivo apresentado por uma criança de três anos não tem o mesmo significado do apresentado aos nove ou 10 anos. A etapa de desenvolvimento das faixas etárias é diferente”, afirma a médica psiquiatra da infância e juventude Tatiana Assumpção.

Tatiana ressalta que uma criança não pode ser diagnosticada como psicopata. O termo correto para os menores de 18 anos é transtorno de conduta ou de personalidade. Isso porque as crianças não têm a personalidade totalmente formada e a condição ainda pode ser minimizada.

Mesmo com tantos sinais, não é fácil reconhecer em seu filho uma criança com distúrbios que podem levar a uma psicopatia na vida adulta. A dificuldade, que segundo especialistas é mais latente nas mães do que nos pais, pode tirar da criança a possibilidade de uma vida em sociedade mais harmoniosa.

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Na adolescência, a condição não reconhecida de Kevin leva a tragédia à família e à comunidade onde eles vivem
Consequências

Essa vida mais próxima do que muitos consideram normal pode ser possível através de um trabalho de contenção de impulsos. A criança precisa aprender desde cedo que suas atitudes podem trazer sérias consequências. Para acostumá-la com essa noção do que pode e o que não pode é preciso que os pais sejam rígidos e não amoleçam durante o processo. “Tirar coisas de que a criança gosta é o caminho mais indicado na infância. Mas não pode deixar brincar com o videogame só um pouquinho. Tirar significa tirar mesmo. Precisa ser firme”, afirma Ana Beatriz.

Quando esse esforço é feito precocemente, a criança vai aprender que não pode quebrar algumas regras porque dessa forma vai se prejudicar. O sentimento do outro continua não sendo importante, mas pelo menos ela não sofrerá perdas. “Essas crianças não têm alteração intelectual ou cognitiva. O que falta mesmo é a empatia pelo outro. O problema da perversidade não é a inteligência, e sim a falta de afetividade”, diz Ana Beatriz.

Aos pais que tentam conter uma perversidade excessiva de seus filhos resta lembrar que ninguém vai conseguir ensiná-los a amar. O que se pode fazer é moldá-los de tal forma que tenham medo de desrespeitar as regras da convivência em sociedade. Ana Beatriz esclarece que a perversidade não é apenas matar, e sim não ter empatia. “Estima-se que 4% da população mundial sofra com esse transtorno, sendo 3% leves e moderados que não matam ninguém. Inclusive eles podem ser até bem sucedidos em diversas áreas de sua vida”.

Especialistas debatem sobre as pequenas maldades que as crianças cometem às vezes, sem querer, e que fazem parte do desenvolvimento:::