CARTA A PAULO FREIRE      

   Maiane

Teixeira de Freitas, 29 de novembro de 2012.

 

Prezado Paulo Freire,

          É uma satisfação trocar algumas palavras com Vossa Senhoria, homem de extenso “saber de experiências feito” (2011, p. 10),  consoante descrição de Leonardo Boff. Nestas breves linhas, exponho a minha alegria, por ter travado contato com algumas das suas obras, que como você mesmo disse, “iluminaram a minha memória viva”, entres as quais, menciono Pedagogia do Oprimido, Pedagogia da Autonomia e Pedagogia da Esperança. Cito esta última, como objeto das minhas recentes análises.

        A obra Pedagogia da Esperança: um reencontro com a Pedagogia do Oprimido é um tratado da esperança, pois o homem operário, o homem do campo, da zona urbana, o homem universal de todas as cores, raças e línguas, e nações, é o protagonista não só desta obra, mas alonga a sua presença no seio da história brasileira, com tintas garrafais, nas letras, garatujas, rabiscos, tais homens marcam as décadas, os anos idos, os que ainda virão, independente da geografia, são homens peregrinos, que marcham fazendo história, pois não esperam-na acontecer.

         Insta sublinhar que você Paulo partiu do Brasil para o mundo, com o fito de comunicar esta tal esperança, necessidade ontológica do ser humano, aos quatro cantos deste universo, “com raiva, com amor, sem o que não há esperança”, (2011, p. 17), haja vista que estamos sendo programados para obliterar esta tal de esperança, fazendo-a sumir dos nossos cronogramas diários, dicionários, das obras literárias, filmes, estrelando a desesperança, a qual nos “imobiliza e nos faz sucumbir no fatalismo em que não é possível juntar as forças indispensáveis ao embate recriador do mundo”. (2011, p. 14).

               Ressalta-se a relevância das ideias veiculas na obra Pedagogia da Esperança, tais como a abordagem linguística, explorada a partir das sintaxes operária e dominante. A primeira com sua riqueza vocabular, cheias de símbolos, sonoridade, como exemplificado na fala do personagem Ciço:

 Educação… Quando o senhor chega e diz “educação”, vem do seu mundo. O mesmo, um outro. Quando eu sou quem fala vem dum outro lugar, de um outro mundo. Vem dum fundo de oco que é o lugar da vida dum pobre, como tem gente que diz. Comparação, no seu, essa palavra vem junto com quê? Com escola, não vem? Com aquele professor fino, de roupa boa, estudado, livro novo, bom, caderno, caneta, tudo muito separado (…)

              A segunda linguagem é constituída de uma estrutura sintática obediente à regra, impecável, cujas sentenças salpicadas de palavras rebuscadas exprimem o contexto social, isto é, o ambiente de vida dos donos desta língua.

              Destarte, como você muito bem o disse, a linguagem se relaciona intimamente com o pensamento – mundo, nesta associação simbiótica definida como “ dialética, processual e contraditória”, o homem só pode agir dialeticamente se  pensar e vocalizar suas proposições de ordem crítica, posto que transforma-se o mundo pela mudança deflagrada por meio da linguagem( cf. Pedagogia da Esperança, 2011, pg. 94).

              Importa salientar a convergência teórica desta obra com a Educação de Jovens e adultos no cenário local, a saber, o extremo sul da Bahia, porquanto ambas partem do princípio de que a esperança é o dispositivo regulador  de quaisquer atividades de cunho social.

                De maneira que sem ela, o adulto ou jovem torna-se meramente um adulto infantil, pelas práticas de  leituras e escrita a que são submetidos, pela domesticação do pensamento, universalização do discurso, porque a Eja de fato, só é possível  a partir de uma pedagogia da esperança, que coloque o oprimido em cena, discutindo com ele, dialogando sobre ele, questionando-o, incluindo-o,valorizando sua sabedoria popular.

                  Nesse sentido, concordo quando afirmas que o adulto trabalhador quando exposto a uma pedagogia da esperança, assume-se enquanto “sujeito cognoscente”,[1]   e não apenas como “incidência do discurso do professor”, uma vez potencializada a “experiência feita” por este grupo em particular, vão apreendendo a realidade, com seus objetos cognoscíveis.

                 Outrossim,o trabalhador jovem e/ou adulto quando chega a sala de aula, não traz consigo o arquétipo de educando, vai se tornando educando a medida que conhece os objetos, estabelecendo relações significativas com os mesmos, cujos significantes são considerados pertinentes quando inscritos no seu ambiente de vida.

                 Aprendi também, Paulo, a declarar abaixo aos excessos,  posto que  o sectarismo da esquerda escraviza mentes e opiniões, caducando velhas ideologias, fundamentados pois em verdades dogmáticas, que enrijecem a esperança e obscurece a visão, pois como você mesmo afirmou, o que vale a pena “é a ética da luta e a boniteza da briga”.( FREIRE, 2011, p.71).

               Compreendi ainda, que apesar do futuro incerto que nos espera, que apesar do niilismo que anula homens e mulheres em sua razão de ser, do “cansaço espiritual” que faz com que os seres humanos sucumbam a própria sorte, apesar da “anestesia histórica” que nos paralisa frente ao porvir, prorrogando mudanças improrrogáveis, como o fim da fome no mundo, do desemprego, da injustiça social, da educação de qualidade, para jovens e adultos, ainda não é o fim para a   esperança, pois ela ainda possui alguns representantes como eu e você,  neste mundo, isto é, ainda alcança um lugar onde pousar, e nos transforma em fazedores de uma história cheia de vida,  na inteireza dos nossos corpos, pensamentos e sentimos, somos integralmente, a esperança.

Maiane tirinha

Formada em Letras Vernáculas pela Uneb/campus X
Pós-graduada em Ensino de Língua Portuguesa e Literatura/ Uniasselvi
Pós-graduada em Educação de Jovens e Adultos (Eja) / Uneb