A princesa negra

Mariara siteTem gente que ainda diz que escravidão é coisa do passado… escravidão, digo, sempre existiu. Nasceu nos primórdios da humanidade e toda vez que surgia um povo vitorioso, o derrotado era transformado em escravo.

A escravidão negra atravessa fronteiras, os idos anos 1530 no Brasil e se estende à atualidade. O modus operandi diversifica-se, a escravidão se instala filosoficamente, castrando opiniões, refutando ideias libertárias, definindo a base da plantation ideal na pós-modernidade, sobrecarregando o outro, de modo vil, da pungente ideologia capitalista.

A escravidão biológica, grifo meu, do sexo, da bebida, dos entorpecentes nas esquinas da vida, a servidão do corpo negro, dos negros sonhos subindo como fumaça espessa das caldeiras dos engenhos de açúcar ou dos sonhos negros ensacados nas lavouras de café tornado pó negro.

Nego é o mesmo que escravo”, dizia um professor meu. Durante as suas aulas, ouvia atenta a exposição de narrativas dramáticas sobre negros e negras transplantados da sua pátria para o estrangeiro, acorrentados como bichos enfurecidos, no cio, por terem-lhes subtraído o pássaro de asas livres, alcunhado liberdade.

Desafortunadamente, quando o assunto era mulher negra, a questão se complicava. Nos rojões da escravidão, nascia uma mulher duplamente obliterada no seu corpo x fala: os lócus da dominação. Descrevo a história de uma delas, Anastácia. Na sua terra princesa, aqui escrava. Da negra África navega sua mãe, princesa negra de origem bantu pelo “Atlântico negro”, local em que dá à luz a Anastácia, fruto do pecado consumado, a que foi forçada por um comerciante português.

Nos frios porões do navio o cordão umbilical se rompia. Violentamente, estatelada, a criança berrava, a liberdade arrancada, cortada então, do número de cidadãos livres. Nas águas cristalinas e revoltas do Atlântico só se ouviam gritos de uma menina que mal nascera e já virava escrava.

Mais tarde, a cor da pele negra confunde a escuridão do Atlântico. Imagens de homens e mulheres negras integram-se ao horizonte escurecido, formando uma fila de corpos nus boiando sobre a vastidão inefável das turvas águas.

Ao ser trazida para o Brasil, Anastácia foi vendida.

A menina negra crescia e a mistura racial da sua mãe africana com o seu pai europeu reservou-a uma beleza inigualável. Pele escura, olhos azuis do lírio – tocha, flor de alma branca. Alguém já viu alma negra ser boa, já que negra é a cor da maldição? A alma deve ser branca, como a cor de qualquer ser humano. Cor preta indica mau agouro na vida e na morte, sujeira, podridão. A culpa é da melanina. São poucos os conhecedores do determinismo genético da pigmentação cutânea e os que conhecem ainda assim discriminam.

Anastácia, nervos de fibra, criança forte e indefesa. Escrava de beleza mítica, virgem puríssima, verdadeiros milagres suas mãos carregavam. Mas, ao defender a honra de mulher negra, resistindo aos desejos sexuais do seu Senhor, foi condenada a usar perpetuamente uma máscara de ferro, ocultando a princesa negra que ainda sobrevivia por trás daquele indumento. Com dificuldades respiratórias, não falava, apenas grunhia, e o seu grunhir dilacerava a alma. O som que saia dos seus lábios aproximava-se do sibilar de um pássaro aprisionado.

Maiane tirinha

Formada em Letras Vernáculas pela Uneb/campus X
Pós-graduada em Ensino de Língua Portuguesa e Literatura/ Uniasselvi
Pós-graduada em Educação de Jovens e Adultos (Eja) / Uneb